måndag 20 oktober 2014

A minha infância

Chamo-me Maria Dulce Andersson (casada), nome de solteira (Maria Dulce da Silva Moura).
Nasci no Alto Molócue, zona montanhosa onde cresci e passaei a maior parte da minha juventude.
Actualmente resido na Suécia juntamente a minha familia.

Filha de António da Silva Moura e de Jacinta Ângelo Gimo (nome de solteira) que depois de casada passou a chamar-se (Jacinta Ângelo Moura).

Meus pais casaram-se na Igreja Católica, numa Capela que ficava ao lado da nossa casa em Alto Molocue
Meu pai era português  nascido em Estarreja  (Portugal) Padre Católico veio a Mocambique em missao depois de ter trabalhado como missionário em Kenia.

Padre António Moura frequentou a Universidade de Coimbra, onde se licenciou em Teologia. Foi professor de Português e Francês, mas também dava aulas de geografia a nível do ensino secundário e pré-universitário.

Ambos meus pais nao estao em vida mas o carinho e Amor que recebi deles vive e viverá sempre em mim enquanto eu cá estiver.
Sou a primeira filha dos 10 irmaos, portanto cinco meninas e cinco rapazes.

A minha Mae, sempre descreveu-me como uma menina muito amada e querida sem dúvida nehuma que eu fui verdadeiramente o fruto de um Amor.
Meu pai renunciou o seu cargo de missionário católico por simples razao que decidiu casar-se com a minha Mae. Como é sabido na altura era quase inaceitável tal acto, digo um padre tinha que seguir certas normas para a sua resignacao. Meu pai fez o requerimento ao Papa Sao paulo Pio VI o qual levou tempo mas obteve a resposta como autorizado a casar-se pela Igreja.

A minha infância e adolescência

Quando comecei a frequentar a escola primária, lembro-e que a minha mae sempre fazia questao de pôr na minha sacolinha leite com ovomaltine e uma sandes de queijo.
A escola ficava mesmo pertinho da nossa casa. Eu adorava brincar com as outras criancas da vila. Corriamos de baixo do sol ardente, as vezes de pé descalco pois que as sandálias parece que pesavam nos pés. A nossa casa era rodeada de mangueiras, goiabeiras, papaieiras, romaseiras, enfim muitas outras plantas que revestiam a horta no quintal da casa

Tinhamos uma agro-pecuária para o sustento familiar, onde criavamos gado suino, aves (galinhas e patos),  mais tarde acrescentou-se o gado caprino. Na agricultura, tinhamos uma pequena machamba de arroz a qual nao tenho ideia o tamanho em Hectares, mas uma boa colheita tinhamos 3-4 sacos de 100kg/saco de arroz em casca por ano. Na nossa horta, produziamos legumes e vegetais em abundância.

Quando voltava da escola, almocava, descancava e antes de ir brincar fazia os T.P.C da escola (trabalho para casa). Depois à tardinha ajudava na cozinha, a regar as plantas, a volta da casa  caso nao chovesse. Outras actividades domésticas consistia em pilar arroz, pilar milho, lavagem de roupa a mao, passar a ferro de carvao, fazer limpeza e arrumar a casa. Ajudava a minha mae a capinar na machamba de arroz e a cuidar dos meus irmaos mais novos.

Meu pai ia dar aulas na Escola Cecundária de Malua, a qual fica à 10 km da vila de Molocue. Enquanto minha Mae trabalhava na OMM (Organizacao da Mulher Mocambicana) onde ela era membro. Ela era uma Mae de trabalho arduo, para além da ocupacao na OMM cuidava dos filhos, dos trabalhos domésticos e das machambas de arroz ou milho e mais.

Quando chovia corriamos a volta da casa a tomar banhos de chuva, trepavamos as mangueiras e comiamos manga madura tirada diretamente da arvore, indescrível o gosto e o aroma!

A menina foi crescendo, passou de crianca para adolescente, e ai comecaram os sonhos. Sonhava em estudar fora do País, pois na altura a escuridao ia cobrindo a luz que iluminava tais sonhos. Ouviam-se "rumores" aqui e acolá de supostos ataques perpetrados pelos entao bandidos armados.

Os "rumores" já se ouviam por toda a parte do país, que finalmente deram origem a uma guerra civil. Uma guerra que dentro de um par de anos desestabilizou e criou muita inseguranca nas familias daquela vila onde dei os meus primeiros mas importantes passos da minha vida.

Já pelas noites ouviam-se desparos de longe assim como enormes claroes e fumassas. A vila já nao tinha a mesma beleza que tinha quando eu era crianca. Pessoas que se deslocavam para a vila ou fora da vila a procura de seguranca que nao era garantida, enfim o caos e o pânico que se vivia naqueles anos era tao enorme que as pessoas perderam o control das suas vidas.

O futuro já nao importava, o que realmente fazia sentido era o quotidiano, estar em vida, ter algo para comer e lugar para dormir. As famílias já nao dormiam nas suas casas com medo dos guerrilheiros Lembro-me que as vezes juntava-se um número considerável de familias num determinado lugar para poder passar a noite possivelmente dormir algumas horas, enquanto alguns vigiavam o seu redor.

A guerra civil entre a Flelimo e a Renamo

A adolescência virou de repente em idade adulta, já nao havia espaco para a vida juvenil, pois que na altura faleceu o meu pai e automaticamente senti uma responsabilidade enorme sobre a minha mae e meus irmaos. Nao apenas pensava, mas sim agia como uma mulher adulta, embora tinha 17 anos de idade. O dinheiro que a minha mae recebia do subsídio do meu falecido pai nao era para gastar em compras desnecessárias. A minha mae dáva-me as vezes um valor monetário que era para comprar material escolar e artigos de uso pessoal. Eu poupava o puco que sobrasse e dava de volta a minha mae, pois que sentia muita pena dela e na situacao que nós todos nos encontrávamos, na altura. Festas? O que é isso??? Nem passava pela minha cabeca, apenas pensava na família, uma família que tinha perdido o seu pai e que vivia em prol da guerra.

Pensava em concluir os estudos, ter um trabalho que me desse um salário para sustentar a familia. Coitada da minha mae, que chorava tanto pedia a Deus para nos proteger, para que nenhum mal pegasse aos seus filhos. Ela era uma mulher forte mesmo na dor, sempre encorajava os seus filhos a olharem para "o lado da luz", para o lado posetivo da vida...dizia sempre "bons dias virao". Uma mae que nao era só nossa mae, mas mae de muitas outras criancas e até adultos. Partilhava o pouco que possuia com sua mae (minha avó) seus irmaos, amigos e outras pessoas que lhe solucitavam. Uma mulher generosa, que dizia "o dinheiro nao interra a ninguém". Vou ter que terminar por aqui...nao consigo escrever mais, fiquei de repente em lágrimas

Estudos no Liceu em Quelimane